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Desafios para a transição agroecológica

A agroecologia aponta caminhos para a restauração da lógica ecológica na agricultura, promovendo princípios e práticas que levam a sistemas agrícolas mais biodiversos e resilientes.¹ Embora seja de extrema importância no contexto atual, podendo auxiliar processos de mitigação e adaptação às mudanças climáticas, podendo contribuir para a Soberania e Segurança Alimentar e na melhoria da qualidade de vida no campo, o avanço da produção agroecológica ainda esbarra em diversas limitações. Conhecer quais são elas a partir da visão das próprias famílias agricultoras é fundamental para criar estratégias e políticas que ajudem a controlá-las.

Durante a aplicação do questionário qualitativo (SurveyStack), foi feita a seguinte pergunta: “quais são as duas principais limitações que sua família enfrenta na produção agroecológica?”. Os dados obtidos ao longo dos anos estão apresentados no gráfico a seguir (Gráfico 34), e revelam tendências importantes.

Gráfico 34: Tendência anual das principais limitações para a produção agroecológica de acordo com as famílias agricultoras (2022-2025).

A mão de obra foi consistentemente considerada a principal limitação, sendo mencionada por 59% das famílias, tanto em 2022 (67 respostas) quanto em 2025 (190 respostas). Esse cenário evidencia a escassez de trabalhadores disponíveis para a produção agroecológica, o que pode estar relacionado ao envelhecimento do campo, decorrente sobretudo da migração da juventude para centros urbanos.² ³ ⁴ Além disso, durante as conversas com as famílias mapeadas no estudo, ouvimos relatos sobre a dificuldade de encontrar trabalhadores com interesse e experiência para aplicar as práticas agroecológicas de produção.

Inicialmente, em 2022, as políticas públicas figuravam como a segunda maior limitação (45% das respostas). Em 2023, elas passaram para a terceira posição e, no ano seguinte, caíram mais uma posição. Em 2025, as políticas públicas eram consideradas uma das principais limitações para 22% das famílias. Desde 2023, a segunda maior limitação é o mercado consumidor, sendo mencionado por mais de 30% das famílias ao longo de todo o estudo, o que indica desafios contínuos na comercialização de produtos agroecológicos. Se em 2022, 39% das famílias o consideravam como uma das duas principais limitações, em 2025 este percentual era de 37%.

Outro desafio que oscilou no percentual de respostas ao longo do tempo foi a assistência técnica, que representava um desafio para 12% das famílias em 2022, crescendo para 21% em 2023, caindo novamente para 13% em 2024 e retornando aos 21% em 2025. As respostas menos relevantes foram relativas às práticas de manejo e à substituição de insumos, que em 2025 corresponderam a 6% e 5% das famílias, respectivamente.

É importante destacar que parte das famílias declarou não enfrentar limitações. No gráfico, esses casos aparecem como a porcentagem de “sem resposta”. Na primeira aplicação do questionário qualitativo, 18% das famílias afirmaram não identificar desafios; já em 2025, esse percentual subiu para 33%. Esse resultado merece atenção, pois pode refletir tanto uma hesitação em apontar dificuldades quanto à percepção de que, no momento, sua produção agroecológica encontra-se em um estágio de maior estabilidade.

Ideias para superar as limitações

Com o intuito de identificar possíveis soluções para os desafios apontados anteriormente, perguntou-se às famílias: “qual a sua sugestão para enfrentar e superar essas limitações?”. Os principais termos utilizados nas respostas de 2025 estão apresentados na nuvem de palavras a seguir (Gráfico 35).

Gráfico 35: Principais termos utilizados para responder à pergunta: “qual a sua sugestão para enfrentar e superar essas limitações?” (2025, N=317). O número indica a quantidade de famílias que utilizaram determinado termo.

As famílias agricultoras apontaram diversas sugestões, sendo as principais “políticas públicas” (62 menções) e “novos mercados” (55 menções). Podemos refletir com isso que, para muitas famílias, as políticas públicas oferecem respostas abrangentes para diferentes limitações. As últimas décadas, especialmente entre 1995 e 2015, foram marcadas por um fortalecimento significativo das políticas de agricultura familiar na América Latina.⁵ ⁶ Esse processo contribuiu para avanços significativos na segurança alimentar e nutricional, bem como para a inclusão produtiva e social de agricultores familiares. Ainda assim, persiste uma grande desigualdade entre as políticas e incentivos destinados à agricultura agroecológica e à agricultura convencional e/ou industrial.

Entre as estratégias mais mencionadas estão também as “formações” (33 menções) e a “promoção da agroecologia” (25 menções), fundamentais para ampliar o conhecimento técnico e difundir práticas sustentáveis. Também merecem destaque a realização de “mutirões” (17 menções) e a “permanência dos jovens no campo” (15 menções), vistos como meios de fortalecer a sucessão familiar e estimular a cooperação comunitária.

Outras estratégias incluem “assistência técnica” (11 menções), “mecanização” (10), “mão de obra” (9), e a “adoção de práticas agroecológicas” (8), além de referências à necessidade de “irrigação e sombra” (7), “mais diversidade” (7) e “novas tecnologias” (7). Menções menos recorrentes referem-se ao associativismo/cooperativismo (5), articulação em rede (4) e acesso a terra, água (4) e crédito (4).

Esses resultados nos fazem refletir o quanto a transição agroecológica é um tema que deve ser tratado de forma interdisciplinar, com ações integradas que viabilizem a sucessão familiar e priorizem a oferta de capacitação e suporte técnico para a produção de base agroecológica, a melhoria no acesso a políticas públicas, o fortalecimento da comercialização de produtos agroecológicos, o estímulo à participação da juventude e o fortalecimento da cooperação comunitária.

¹ ALTIERI, Miguel A.; NICHOLLS, Clara Inés. Agroecology: challenges and opportunities for farming in the Anthropocene. IJANR – International Journal of Agriculture and Natural Resources, v. 47, n. 3, p. 204-215, 2020. DOI: 10.7764/ijanr.v47i3.2281.

² CAMARANO, Ana Amélia; ABRAMOVAY, Ricardo. Êxodo rural, envelhecimento e masculinização no Brasil: panorama dos últimos 50 anos. Texto para Discussão, n. 621. Rio de Janeiro: IPEA, 1999. Disponível em: https://repositorio.ipea.gov.br/server/api/core/bitstreams/3814ecde-600f-4458-ad5a-8fc6378d3220/content. Acesso em: 27 set. 2025.

³ SPANEVELLO, Rosani Marisa; AZEVEDO, Letícia Fátima de; VARGAS, Letícia Paludo; MATTE, Alessandra. A migração juvenil e implicações sucessórias na agricultura familiar. Revista de Ciências Humanas, v. 45, n. 2, p. 291‑304, 2011. DOI: 10.5007/2178‑4582.2011v45n2p291.

⁴ STROPASOLAS, Valmir Luiz. O mundo rural no horizonte dos jovens. Florianópolis: Editora da UFSC, 2006. ISBN: 8532803598.

⁵ REAF MERCOSUL. Reunião Especializada sobre Agricultura Familiar do Mercosul. Agroecologia, políticas públicas e participação social. Florianópolis: REAF Mercosul, 2025. Disponível em: https://cepagro.org.br/wp-content/uploads/2025/07/PT-REAF_MERCOSUL_SITE.pdf. Acesso em: 27 set. 2025.

⁶ SABOURIN, Éric; CRAVIOTTI, Clara; MILHORANCE, Carolina. The dismantling of family farming policies in Brazil and Argentina. International Review of Public Policy, v. 2, n. 1, p. 45‑67, 2020. DOI: 10.4000/irpp.799.

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