A sucessão familiar pode ser compreendida como a transferência de poder e patrimônio entre gerações¹, mas também de conhecimentos, práticas e saberes acumulados ao longo do tempo. A falta de sucessão no campo reflete na escassez de mão de obra, e também desafia a transmissão de conhecimentos e a renovação geracional dos sistemas agroecológicos de produção. Garantir a sucessão familiar significa assegurar a permanência de jovens no campo, por isso, neste estudo, investigamos como o tema se manifesta nas unidades agrícolas familiares, considerando a presença de jovens, seu interesse em seguir na agroecologia e sua participação nas atividades produtivas.
Primeiro, identificamos quais unidades agrícolas contam com a presença de jovens (15 a 29 anos), conforme mostrado no Gráfico 23. A maioria das unidades agrícolas (54,2%) não tem jovens, enquanto pelo menos um/a jovem vive em 45,8% delas. Esses dados reforçam a hipótese de que a agricultura familiar e camponesa enfrenta desafios relacionados ao enve-lhecimento da população rural e à migração crescente da juventude para centros urbanos.
Gráfico 23: Presença de juventude nas unidades agrícolas (2025, N=321).
Com o objetivo de aprofundar a compreensão desse cenário, foram formuladas perguntas sobre o grau de participação dos jovens em espaços sócio-organizativos, sua influência nos processos de tomada de decisão nas unidades agrícolas familiares e sobre o nível de empoderamento em termos de autonomia financeira e acesso a políticas públicas. Tais perguntas foram direcionadas aos jovens das unidades agrícolas onde eles estavam presentes. Os resultados estão apresentados nos gráficos a seguir (Gráficos 24 a 27).
Gráfico 24: Grau de acesso a políticas públicas (2025, N=147).
Gráfico 25: Grau de envolvimento na tomada de decisões nas unidades (2025, N=147).
Gráfico 26: Grau de independência financeira (2025, N=147).
Gráfico 27: Grau de participação em espaços sócio-organizativos (2025, N=147).
Os mesmos jovens também foram perguntados sobre o seu interesse em seguir trabalhando com agroecologia. Veja nos gráficos a seguir (Gráfico 28) como esse interesse se manifestou proporcionalmente ao longo dos anos.
Gráfico 28: Interesse da juventude em seguir trabalhando na agroecologia entre 2022 e 2025.
Observa-se uma tendência de estabilidade no interesse dos jovens em permanecer na agricultura agroecológica, com mais de 70% manifestando essa intenção. A proporção de jovens que desejam seguir na agroecologia indica um potencial promissor para a continuidade das atividades agroecológicas e para a sucessão das famílias participantes do projeto. Entretanto, essa decisão é multifacetada, influenciada por fatores econômicos e socioculturais, incluindo a construção de uma identidade vinculada à agricultura.²
A atividade agrícola ainda é marcada por alguns estereótipos construídos historicamente que impactam tanto a forma como a sociedade valoriza o trabalho no campo quanto a autoestima e a identidade dos próprios agricultores e agricultoras.¹ ³ Além dessa dimensão mais subjetiva, há também fatores materiais que reforçam o interesse dos jovens em migrar do campo para a cidade, já que a sua permanência no meio rural depende também do acesso a serviços públicos de qualidade — como instituições de ensino —, de perspectivas profissionais diversas e de políticas culturais e opções de lazer que tragam mais qualidade para a vida rural.⁴ A pobreza e a falta de perspectivas profissionais também continuam sendo uma das principais razões para a migração dos jovens para áreas urbanas, já que muitos deles têm dificuldade em encontrar emprego no campo ou, em muitas ocasiões, acabam sendo mão de obra gratuita para suas próprias famílias.
Outros fatores também podem contribuir com os desejos de permanecer ou não na atividade agrícola. Com base nas respostas anteriores, traçamos a correlação entre o interesse dos jovens em seguir na agroecologia e seu nível de independência financeira. Observando o gráfico (Gráfico 29), percebe-se que quanto maior o grau de autonomia financeira, maior a disposição dos jovens em permanecer na agroecologia.
Gráfico 29: Correlação entre o interesse da juventude em seguir trabalhando com agroecologia e seu nível de independência financeira (N=147).
Para identificar estratégias que favoreçam a permanência dos jovens no campo, o questionário qualitativo trouxe a pergunta: “o que pode ser feito para aumentar a permanência dos jovens no campo?”. As respostas foram agrupadas em palavras-chave conforme a frequência de menções, sendo as mais citadas: educação (mencionada por 25 famílias), autonomia financeira (15), promoção da agroecologia (11), políticas públicas (11), novas tecnologias (10) e mobilização de jovens (10) (Gráfico 30).
Gráfico 30: Principais termos utilizados para responder à pergunta: “o que pode ser feito para aumentar a permanência dos jovens no campo?”. O número indica a quantidade de famílias que utilizaram determinado termo (2025, N=321).
Os resultados estão alinhados a estudos recentes da FAO (2025)⁵, que apontam as desigualdades de acesso a recursos, educação, tecnologias e serviços financeiros enfrentadas pelos jovens rurais, além da vulnerabilidade de seus territórios às mudanças climáticas. Esses fatores impactam a produção agrícola e impulsionam a migração. Para mudar esse cenário é importante desenvolver políticas e ações integradas que considerem aspectos socioeconômicos, culturais e geracionais, reconhecendo a juventude camponesa como importante grupo social que possui suas próprias demandas e aspirações.⁶ Fomentar a autonomia financeira, ampliar as oportunidades de formação técnico-educacional, promover atividades de mobilização e incentivar a presença de jovens em espaços de liderança mostraram-se fundamentais para fortalecer tanto a sucessão familiar quanto o engajamento da juventude na agroecologia.⁷
¹ CAMARANO, Ana Amélia; ABRAMOVAY, Ricardo. Êxodo rural, envelhecimento e masculinização no Brasil: panorama dos últimos 50 anos. Texto para Discussão, n. 621. Rio de Janeiro: IPEA, 1999. Disponível em: https://repositorio.ipea.gov.br/server/api/core/bitstreams/3814ecde-600f-4458-ad5a-8fc6378d3220/content. Acesso em: 27 set. 2025.
² STROPASOLAS, Valmir Luiz. O mundo rural no horizonte dos jovens. Florianópolis: Editora da UFSC, 2006. ISBN: 8532803598.
³ MENEZES, Marilda Aparecida de; STROPASOLAS, Valmir Luiz; BARCELLOS, Sergio Botton (org.). Juventude rural e políticas públicas no Brasil: dilemas e perspectivas. Brasília: Presidência da República, 2014. Disponível em: https://ww2.contag.org.br/documentos/pdf/ctg_file_2039627409_13082018150759.pdf. Acesso em: 27 set. 2025.
⁴ ABRAMOVAY, Ricardo (coord); SILVESTRO, Milton; CORTINA, Nelson; BALDISSERA, Tadeu; FERRARI, Dilvan; TESTA, Vilson Marcos. Juventude e agricultura familiar: desafios dos novos padrões sucessórios. Brasília: UNESCO, 1998. 104 p. Disponível em: https://precog.com.br/bc-texto/obras/ue000152.pdf. Acesso em: 27 set. 2025.
⁵ FAO. Food and Agriculture Organization of the United Nations. The status of youth in agrifood systems. Roma: FAO, 2025. DOI: 10.4060/cd5886en.
⁶ MARIN, Joel Orlando Bevilaqua. Juventudes rurais: projetos de emancipação social. Desenvolvimento em Questão, v. 18, n. 52, p. 33‑54, 2020. DOI: 10.21527/2237‑6453.2020.52.33-54.
⁷ HLPE. High Level Panel of Experts on Food Security and Nutrition. Promoting youth engagement and employment in agriculture and food systems. Rome: FAO / Committee on World Food Security, 2021. Disponível em: https://openknowledge.fao.org/server/api/core/bitstreams/034c7cf9-9215-4304-a264-ecb0215a50d2/content. Acesso em: 27 set. 2025.
Asociación de Productores Orgánicos (APRO)
Asociación Vivamos Mejor
Centro Campesino para el Desarrollo Sustentable, A.C.
Centro de Estudos e Promoção da Agricultura de Grupo (Cepagro)
Centro de Tecnologias Alternativas Populares (CETAP)
Corporación Buen Ambiente (Corambiente)
Fundesyram
Movimento Mecenas da Vida (MMV)
Movimiento de Economía Social y Solidaria del Ecuador (meSSe)
Tijtoca Nemiliztli, A.C.
Inter-American Foundation (IAF)
Social Sciences and Humanities Research Council of Canada (SSHRC)
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