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Relações de produção-consumo

Como pudemos observar na seção anterior, é comum que os alimentos agroecológicos sejam comercializados de forma direta entre quem produz e quem consome. O gráfico abaixo confirma essa tendência. Durante a aplicação dos questionários qualitativos, perguntamos às famílias se elas mantêm relação direta com consumidores e consumidoras (Gráfico 18).

Gráfico 18: Porcentagem de famílias que mantêm ou não relação direta com consumidores (2022-2025, N=399).

Dentre as 399 famílias que responderam essa pergunta, 67,9% disseram que sim, têm relação direta com consumidores/as. Essas interações podem ocorrer virtual ou presencialmente em diferentes espaços — como feiras, visitas às propriedades rurais, entregas domiciliares, grupos de consumo, entre outros — e são importantes para a promoção de dinâmicas entre o campo e a cidade (zonas rurais e urbanas), oportunizando trocas e fortalecendo a economia local.¹ ² Os consumidores são atores decisivos³, pois em colaboração com os agricultores, têm grande potencial de remodelar as práticas agrícolas, promover inovações e transformar o sistema agroalimentar.⁴

Para as 271 famílias que disseram manter contato direto com consumidores, perguntamos também qual é, para elas, o principal benefício dessa relação. O gráfico a seguir (Gráfico 19) mostra os benefícios reportados e a sua recorrência.

Gráfico 19: Principais benefícios da relação direta com consumidores, segundo as famílias agricultoras (2022-2025, N=271).

A confiança aparece como o benefício mais valorizado pela maioria das famílias. A confiança construída nessas relações diretas entre agricultores e consumidores permite o estabelecimento de vínculos de empatia, reconhecimento e amizade, oferecendo um contraponto ao consumo contemporâneo, marcado pela desconfiança diante da transformação do alimento em mera mercadoria. Essa lógica mercantil desconsidera os valores sociais, culturais e ambientais do alimento e gera incertezas quanto à sua qualidade nutricional, social e ecológica.⁵

O segundo e terceiro benefícios são respectivamente a autonomia — mencionado por 17,3% das famílias — e os preços — reportado por 13,2% delas. Isso sugere que, quando a relação é direta e sem intermediação, os/as agricultores/as sentem-se com maior poder de decisão sobre sua produção e controle sobre os preços.⁶ Os consumidores pagam valores mais justos e os produtores recebem uma melhor remuneração final. Isso ocorre devido à redução do número de intermediários nos Circuitos Curtos de Comercialização, evitando custos adicionais que encarecem o preço ao longo da cadeia agroalimentar.⁷

Também procuramos compreender onde e/ou de qual forma o contato com consumidores se dá. O gráfico a seguir (Gráfico 20) mostra que normalmente esse encontro acontece na própria unidade agrícola — 58,3% dos casos —, mas que o WhatsApp também é largamente utilizado para a comunicação com consumidores, sendo utilizado por 57,9% das famílias. As oficinas, visitas de verificação — no caso dos SPGs — e as feiras também são ambientes propícios ao encontro entre quem produz e quem consome alimentos agroecológicos.

Gráfico 20: Locais/meios onde a relação entre agricultores/as e consumidores/as mais acontece (2022-2025, N=271).

As visitas às unidades agrícolas e a realização de oficinas oportunizam trocas de saberes, informações e experiências entre as realidades rural e urbana. Esses encontros também atuam como espaços de sensibilização, permitindo que os consumidores compreendam a origem dos alimentos que consomem, conheçam as práticas de produção e se familiarizem com os desafios enfrentados no campo. Dessa forma, esse ambiente apresenta grande potencial para engajar e mobilizar os consumidores, ampliando sua compreensão sobre o espaço rural e a realidade da agricultura familiar agroecológica.⁸

¹ GAZOLLA, Marcio; SCHNEIDER, Sérgio. A produção da autonomia: os “papéis” do autoconsumo na reprodução social dos agricultores familiares. Estudos Sociedade e Agricultura, v. 15, n. 1, p. 89‑122, 2007. Disponível em: https://revistaesa.com/ojs/index.php/esa/article/view/283/279. Acesso em: 27 set. 2025.

² VIEGAS PREISS, Patricia; SILVA, Giovana P.; DEPONTI, Carmen M.; DEGGERONE, Zaira A. Impacto da Covid‑19 na comercialização de alimentos da agricultura familiar no Rio Grande do Sul. Eutopía – Revista de Desarrollo Económico Territorial, n. 21, p. 9‑29, 2022. DOI: 10.17141/eutopia.21.2022.5362.

³ PORTILHO, Fátima. Novos atores no mercado: movimentos sociais econômicos e consumidores politizados. Política & Sociedade, Florianópolis, v. 8, n. 15, p. 199‑224, out. 2009. DOI: 10.5007/2175‑7984.2009v8n15p199.

⁴ RENTING, Henk; SCHERMER, Monique; ROSSI, Alberto. Building food democracy: exploring civic food networks and newly emerging forms of food citizenship. International Journal of Sociology of Agriculture and Food, v. 19, n. 3, p. 289‑307, 2012. DOI: 10.48416/ijsaf.v19i3.206.

⁵ COELHO DE SOUZA, José; PUGAS, Anderson da Silva; ROVER, Oscar José; NODARI, Eunice Sueli. Social innovation networks and agrifood citizenship. The case of Florianópolis Area, Santa Catarina, Brazil. Journal of Rural Studies, v. 99, p. 223‑232, 2023. DOI: 10.1016/j.jrurstud.2021.09.002.

⁶ DAROLT, Moacir Roberto; LAMINE, Claire; BRANDENBURG, Alfio; FAGGION ALENCAR, Maria de Cléofas Faggion Alencar; ABREU, Lucimar Santiago Abreu. Alternative food networks and new producer‑consumer relations in France and in Brazil. Ambiente & Sociedade, São Paulo, v. 19, n. 2, p. 1‑22, 2016. DOI: 10.1590/1809‑4422ASOC121132V1922016.

⁷ DAROLT, Moacir Roberto. Circuitos curtos de comercialização de alimentos ecológicos: reconectando produtores e consumidores. In: NIEDERLE, Paulo André; ALMEIDA, Luciano de; VEZZANI, Fabiane Machado (org.). Agroecologia: práticas, mercados e políticas para uma nova agricultura. Curitiba: Kairós, 2013. p. 139‑170. Disponível em: https://terradedireitos.org.br/wp-content/uploads/2013/07/Livro-AGROECOLOGIA-FINAL-IMPRESSO.pdf. Acesso em: 27 set. 2025.

⁸ ESCOSTEGUY, Isadora Leite. Inovações sociais na promoção da agroecologia e de redes de civismo agroalimentar em Florianópolis‑SC. 2019. 120 f. Dissertação (Mestrado em Agroecossistemas) — Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2019. Disponível em: https://repositorio.ufsc.br/bitstream/handle/123456789/214989/PAGR0437-D.pdf?sequence=-1&isAllowed=y. Acesso em: 27 set. 2025.

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