Durante a aplicação dos questionários qualitativos (SurveyStack), as famílias foram perguntadas sobre as formas de distribuição e comercialização da sua produção. O primeiro gráfico (Gráfico 15) mostra o percentual de famílias que utilizaram cada forma de escoamento da produção em 2022 e em 2025. Já o gráfico seguinte (Gráfico 16) mostra a porcentagem média da produção destinada a cada canal, considerando todas as unidades agrícolas combinadas.
Gtáfico 15: Porcentagem de famílias que utilizaram o canal de comercialização e consumo indicado em 2022 (N=171) e em 2025 (N=321).
Gráfico 16: Percentual médio da produção destinada a cada canal, considerando todas as unidades agrícolas (2022 e 2025).
Uma informação relevante refere-se ao autoconsumo: em 2025, mais de 85% das famílias destinaram parte da sua produção para o consumo próprio. Esse já é um dado relevante, mas é ainda mais impressionante saber que cerca de 1/3 de toda a produção foi destinada para o autoconsumo, e isso normalmente não é contabilizado nas estatísticas econômicas de produtividade. Embora seja frequentemente invisibilizada, a produção para o autoconsumo tem suas raízes na agricultura camponesa e tem sido uma estratégia central para garantir a reprodução social das comunidades rurais. Está associada à sociabilidade, à identidade cultural e aos hábitos alimentares transmitidos entre gerações, além de contribuir para a segurança alimentar e nutricional das famílias e para a manutenção da agrobiodiversidade.¹ Também fortalece a autonomia das agricultoras e agricultores, funcionando como fonte de renda não monetária e garantindo uma economia significativa no orçamento doméstico³¹, o que reduz vulnerabilidades e garante maior resiliência socioeconômica às comunidades camponesas.² ³
Entre os canais de comercialização, as feiras aparecem como as mais utilizadas — 39% das famílias em 2022 e 26% em 2025 — seguidas pelas cooperativas — acessadas por 35% das famílias em 2022 e 26% em 2025. Na agroecologia, as feiras livres são um importante canal de venda direta, onde agricultores e consumidores interagem face a face. Elas integram os chamados Circuitos Curtos de Comercialização (CCC), amplamente difundidos na agroecologia. Os CCC trazem diversos benefícios, como preços mais justos para os consumidores e melhor remuneração para os produtores, já que reduzem o número de intermediários e aproximam os pontos de produção e consumo, além de promover autonomia e laços de proximidade e confiança entre quem produz e quem consome.⁴ No entanto, observou-se uma expressiva diminuição das feiras como canais de venda para as famílias agricultoras. Esse declínio pode estar relacionado a fatores como a pandemia, o crescimento das vendas online e por delivery, e a expansão das grandes redes varejistas e hipermercados, o que possivelmente gerou perdas significativas para as famílias que tinham a feira como seu principal mercado de venda direta.⁵
No outro extremo do gráfico, os restaurantes e supermercados se mostram pouco expressivos enquanto meios de comercialização de alimentos agroecológicos, com declínio ao longo dos anos. Em 2022, apenas 8% das famílias venderam parte de sua produção para restaurantes, sendo que em 2025, esse percentual caiu para 3%. Os supermercados tiveram uma queda de dois pontos percentuais — indo de 4% em 2022 para 2% em 2025.
Também observamos que, ao longo do tempo, houve um aumento no número de famílias que realizou doações de alimentos, o que pode ter sido impulsionado por redes solidárias que se fortaleceram durante a pandemia, envolvendo associações comunitárias, movimentos sociais e cooperativas para escoar a produção local e atender populações vulneráveis. Também aumentaram as vendas institucionais. No caso do Brasil, entre 2022 e 2025, houve a ampliação de políticas públicas, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE)*, que priorizam a compra estatal de alimentos da agricultura familiar e alimentos agro-ecológicos. Em outros países da América Latina, também existem iniciativas e articulações para inserir alimentos agroecológicos em programas sociais e escolares.
Para ajudar a compreender as estratégias de comercialização adotadas pelas famílias agricultoras, também buscamos entender como as suas unidades agrícolas estão localizadas em relação a centros urbanos e mercados consumidores. O gráfico abaixo (Gráfico 17) apresenta dados sobre a distância média das unidades agrícolas até os centros urbanos mais próximos. Por centros urbanos, consideramos os municípios com mais de 10 mil habitantes.
Gráfico 17: Distância média (em km) das unidades agrícolas ao centro urbano (município com mais de 10 mil habitantes) mais próximo, por organização (N=527).
Um aspecto central dos circuitos curtos de comercialização são os intermediários e também a distância percorrida pelos alimentos entre o seu local de produção e consumo. A definição com base na “quilometragem” pode ser arbitrária, pois de acordo com a literatura há uma grande variação que é influenciada por cada contexto de experiência e país.⁶ Ainda assim, os dados sobre a distância até os centros urbanos são importantes de analisar, pois podem indicar se a proximidade ou o afastamento dos mercados consumidores influencia a diversidade de produção e os canais de comercialização. Por exemplo, a análise dos resultados indica uma relação estatisticamente significativa entre a distância aos centros urbanos e a adoção de canais de comercialização. Observa-se que as UAs mais afastadas dos centros urbanos apresentam maior probabilidade de recorrer às cooperativas, enquanto aquelas localizadas mais próximas têm probabilidade significativamente maior de adotar canais de venda direta ao consumidor. Além disso, quanto maior a distância até o consumidor final, mais desafiador se torna o transporte e acondicionamento dos alimentos, o que pode levar os/as agricultores/as a priorizarem determinados cultivos em detrimento de outros.
* Programas do governo brasileiro que compram alimentos da agricultura familiar: o PAA destina-os à doação e à comercialização em mercados institucionais; o PNAE direciona-os para a alimentação escolar.
¹ GRISA, Catia; SCHNEIDER, Sergio. “Plantar pro gasto”: a importância do autoconsumo entre famílias de agricultores do Rio Grande do Sul. Revista de Economia e Sociologia Rural, v. 46, n. 2, p. 481‑515, 2008. DOI: 10.1590/S0103-20032008000200008.
² GAZOLLA, Marcio. Agricultura familiar, segurança alimentar e políticas públicas: uma análise a partir da produção para autoconsumo no território do Alto Uruguai/RS 2004. 287 f. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2004. Disponível em: https://lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/5583/000472644.pdf?sequence=1&isAllowed=y. Acesso em: 27 set. 2025.
³ GAZOLLA, Marcio; SCHNEIDER, Sérgio. A produção da autonomia: os “papéis” do autoconsumo na reprodução social dos agricultores familiares. Estudos Sociedade e Agricultura, v. 15, n. 1, p. 89‑122, 2007. Disponível em: https://revistaesa.com/ojs/index.php/esa/article/view/283/279. Acesso em: 27 set. 2025.
⁴ DAROLT, Moacir Roberto. Circuitos curtos de comercialização de alimentos ecológicos: reconectando produtores e consumidores. In: NIEDERLE, Paulo André; ALMEIDA, Luciano de; VEZZANI, Fabiane Machado (org.). Agroecologia: práticas, mercados e políticas para uma nova agricultura. Curitiba: Kairós, 2013. p. 139‑170. Disponível em: https://terradedireitos.org.br/wp-content/uploads/2013/07/Livro-AGROECOLOGIA-FINAL-IMPRESSO.pdf. Acesso em: 27 set. 2025.
⁵ VIEGAS PREISS, Patricia; SILVA, Giovana P.; DEPONTI, Carmen M.; DEGGERONE, Zaira A. Impacto da Covid‑19 na comercialização de alimentos da agricultura familiar no Rio Grande do Sul. Eutopía – Revista de Desarrollo Económico Territorial, n. 21, p. 9‑29, 2022. DOI: 10.17141/eutopia.21.2022.5362.
⁶ ESCOSTEGUY, Isadora Leite. Inovações sociais na promoção da agroecologia e de redes de civismo agroalimentar em Florianópolis‑SC. 2019. 120 f. Dissertação (Mestrado em Agroecossistemas) — Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2019. Disponível em: https://repositorio.ufsc.br/bitstream/handle/123456789/214989/PAGR0437-D.pdf?sequence=-1&isAllowed=y. Acesso em: 27 set. 2025.
Asociación de Productores Orgánicos (APRO)
Asociación Vivamos Mejor
Centro Campesino para el Desarrollo Sustentable, A.C.
Centro de Estudos e Promoção da Agricultura de Grupo (Cepagro)
Centro de Tecnologias Alternativas Populares (CETAP)
Corporación Buen Ambiente (Corambiente)
Fundesyram
Movimento Mecenas da Vida (MMV)
Movimiento de Economía Social y Solidaria del Ecuador (meSSe)
Tijtoca Nemiliztli, A.C.
Inter-American Foundation (IAF)
Social Sciences and Humanities Research Council of Canada (SSHRC)
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