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Produção agroecológica

Falar de produtividade na agroecologia é uma tarefa desafiadora, sobretudo porque a agroecologia é baseada em princípios e os sistemas agroecológicos de produção não se orientam apenas pelo volume de mercadorias produzidas, mas pela capacidade de garantir sustentabilidade ecológica, justiça social e autonomia das famílias agricultoras. Diferentemente da lógica da agricultura convencional — onde a produtividade é medida quase que exclusivamente pela relação direta com o aumento da renda e lucro, constituindo um dos principais motores da intensificação agrícola¹ —, a agroecologia compreende a produção como um processo complexo, em que o equilíbrio entre dimensões econômicas, sociais, culturais e ambientais é indispensável.

Embora existam estudos que analisem a produtividade em sistemas agroecológicos, essa continua sendo uma lacuna importante na pesquisa. Muitas vezes, os estudos são de curta duração ou não há exemplos aplicados diretamente nas unidades agrícolas.² ³ No entanto, a avaliação da produtividade e dos dados de colheita neste projeto justifica-se por múltiplos objetivos estratégicos: testar as funcionalidades do LiteFarm para essas aplicações, estimular entre as famílias agricultoras a cultura de registro e da gestão da unidade agrícola, e, ao mesmo tempo, iniciar um piloto de coleta e sistematização de informações sobre colheitas e produtividade de cultivos específicos.

Para o indicador de produção agroecológica neste estudo piloto, consideramos as informações relativas ao volume de colheitas registrado pelas famílias agricultoras no LiteFarm. Dada a complexidade dos sistemas agroecológicos, as colheitas eram dinâmicas e realizadas de forma intermitente ao longo do dia, da semana e do ano, para diferentes finalidades: consumo familiar, alimentação animal, partilha comunitária e comercialização. Como poucas culturas eram colhidas “de uma só vez”, houve dificuldade em registrar rendimentos completos ao longo da safra. Assim, utilizamos dados de 45 famílias com registros mais consistentes, verificados por técnicos e técnicas de campo, por estarem mais acordes com a realidade.

A análise compreendeu de 1º de junho de 2024 a 31 de julho de 2025. Cada organização participante selecionou entre quatro e sete unidades agrícolas que registraram suas colheitas de forma detalhada, cobrindo ao menos três cultivos diferentes. Os dados coletados permitiram a análise da produtividade média — representada aqui como a relação entre quantidade produzida (kg) por área onde o cultivo foi produzido (ha), por unidade agrícola. Essas informações estão representadas por organização nos Gráficos 12 a 14, em que cada gráfico refere-se a um grupo de cultivos. Os cultivos foram organizados em três grupos principais:

1. Frutas e especiarias: açaí, banana-maçã, abacate, banana, amoras, cacau, carqueja, acerola, pimentas secas (todas as variedades), cidró, café, ata (fruta-do-conde), pitaya, figo, flores, gengibre, toranja, goiaba, laranja bahia, limão, limão azedo, tangerina, amora (para fruto, todas as variedades), nance, laranja, mamão, maracujá, pêssego, pera, caqui, abacaxi, banana-da-terra, ameixa, alecrim, graviola, morango, tangerina, açafrão-da-terra (turmeric), kinkan, limón, limón mandarino, limão tahiti.

2. Grãos e amiláceos: alberja, almeirão, açafrão-da-terra, manjericão, feijão seco (grão comestível), feijão verde colhido, beterraba forrageira (mangel), bertalha, fava seca, feijão-borboleta (butterfly pea), couve forrageira, batata-doce roxa (camote morado), capuchinha, caruru, mandioca, cavalinha, palma/nopal (cacto cochonilha), couve-flor, feijão carcabello, amendoim, guaco, lamb’s-ear, louro, milho, milho crioulo, milho comum, milho para cereais, milho ordinário, milho amarelo, hortelã (todas as variedades), mostarda, ora-pro-nóbis (PANC), batata, ervilha seca (para grão), poejo, picão, poroto, batata-doce, tule, vagem, trigo, yacon, inhame, alho-poró, café, café castillo, café costa-rica, chaya, plátano, plátano artón, yuca, yuca moradilla.

3. Verduras e melões: abóbora cabotiá, acelga, alfavaca-cravo, babosa (aloe vera), rúcula, beterraba de mesa, brócolis, repolho (vermelho, branco e savoy), cenoura, couve-flor, aipo, acelga (chard), chuchu, chilacayote, coentro, milho-doce (para verdura), agrião, pepino, berinjela, jiló africano (ethiopian nightshade), funcho (erva-doce), alho seco, guisquil, couve, alho-poró, alface, quiabo, cebolinha (welsh onion), cebola amarela/branca, salsa, pepino de rellenar, abóbora comestível, rabanete, azedinha, espinafre, abóbora (squash), pimentão doce, tansagem, tomate, abobrinha, alberjón, cebolla junca, cebolla puerro.

Gráfico 12: Produtividade média de cultivos do grupo frutas e especiarias, por organização participante (kg/ha) (junho/2024 a julho/2025). Os números entre parênteses indicam a quantidade de variedades cultivadas.

Gráfico 13: Produtividade média de cultivos do grupo grãos e amiláceos, por organização participante (kg/ha) (junho/2024 a julho/2025).

Gráfico 14: Produtividade média de cultivos do grupo verduras e melões por organização participante (kg/ha) (junho/2024 a julho/2025).

É fundamental destacar que não é possível estabelecer comparações diretas entre os resultados das diferentes organizações, uma vez que os cultivos monitorados variaram entre elas, bem como houve organizações que registraram dados de mais cultivos do que outras. Dito isso, os números apresentados devem ser compreendidos como uma ilustração da escala de registro de cada organização, e não como indicadores de maior ou menor eficiência produtiva entre as unidades ou organizações participantes. No entanto, ainda se pode interpretar que, por exemplo, dentre as famílias mexicanas, predominou o registro de cultivos de frutas e especiarias, enquanto no Equador, a predominância foi dos cultivos de grãos, e, na Guatemala, os cultivos de verduras e melões.

A maioria das famílias agricultoras não mantém registros de sua produção e, quando o fazem, registram apenas a parcela destinada à comercialização. Esse padrão revelou-se um aspecto fundamental para a compreensão dos resultados obtidos. Um dos achados mais significativos do acompanhamento dos dados de colheita foi a constatação da quantidade real de alimentos que as famílias produzem em termos de quilogramas, evidenciando uma produção substancialmente maior do que a inicialmente percebida pelas próprias famílias. Tal resultado demonstra a importância dos registros para o reconhecimento da real capacidade produtiva dos sistemas agroecológicos.

Outro resultado identificado foi a predominância de diferentes grupos de cultivos conforme o contexto geográfico e produtivo. Essa variação evidencia as especificidades regionais e as vocações produtivas locais. Note que, no gráfico, essas regiões estão representadas como organizações. Como exemplo, podemos observar o contexto brasileiro. Enquanto na região de atuação do Movimento Mecenas da Vida (MMV), localizado no sul da Bahia, nordeste brasileiro, identificou-se uma predominância na produção de cacau (grupo frutas e especiarias), que constitui o foco produtivo das famílias na região, em Santa Catarina, no sul do país, onde o Cepagro atua, observa-se um foco predominante nas hortaliças (grupo verduras e melões), refletindo as características climáticas e as demandas do mercado local.

¹ TITTONELL, Pablo; PIÑEIRO, Gervásio; GARIBALDI, Lucas A.; DOGLIOTTI, Santiago; OLFF, Han; JOBBAGY, Esteban G. Agroecology in large scale farming — A research agenda. Frontiers in Sustainable Food Systems, v. 4, 2020. DOI: 10.3389/fsufs.2020.584605.

² ALTIERI, Miguel A. Applying agroecology to enhance the productivity of peasant farming systems in Latin America. Environment Development and Sustainability, v. 1, n. 3, p. 197-217, 1999. DOI: 10.1023/A:1010078923050.

³ DITTMER, Kyle M.; ROSE, Sabrina; SNAPP, Sieglinde S. Agroecology can promote climate change adaptation outcomes without compromising yield in smallholder systems. Environ Manage, v. 72, n. 2, p. 333-342, 2023. DOI: 10.1007/s00267-023-01816-x.

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