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Agrobiodiversidade

Agrobiodiversidade é um termo amplo que abrange a diversidade biológica — silvestre e domesticada — de plantas, animais, micro-organismos e fungos presentes nos agroecossistemas, estando direta e indiretamente relacionada à produção de alimentos e matérias-primas, fazendo-se presente no cotidiano da sociedade.¹ Segundo a Convenção sobre a Diversidade Biológica (1992), agrobiodiversidade é a diversidade de genes, espécies, ecossistemas e suas interações.² Ou seja, permeia também culturas e tradições, estando intimamente ligada a dimensões socioculturais³ ⁴, além de ser fundamental para a garantia da segurança e soberania alimentar e nutricional dos países.⁵ Trata-se, portanto, de um tema de grande relevância para a humanidade.

Mesmo compreendendo a abrangência do termo, é importante ressaltar que, no contexto deste estudo, o indicador de agrobiodiversidade se concentra na diversidade cultivada pelas famílias agricultoras. O gráfico abaixo (Gráfico 9) apresenta a diversidade total e média de variedades cultivadas nas unidades agrícolas ao longo dos anos. Os dados estão resumidos por organização.

Gráfico 9: Diversidade total e média de variedades cultivadas nas unidades agrícolas, por organização (2022-2025, N=460).

No Sul Global, os agricultores familiares e camponeses, responsáveis por cerca de metade dos alimentos produzidos no mundo, são os principais guardiões da agrobiodiversidade em seus sistemas produtivos. Nos países contemplados pelo projeto, essa agrobiodiversidade é expressiva (Gráfico 9) e está relacionada aos sistemas agrícolas tradicionais, a práticas de manejo milenares e ao profundo conhecimento ecológico, estando intimamente associada à promoção da agroecologia e à segurança alimentar nos territórios.⁶

Apesar de expressiva, sabemos que a diversidade de variedades apresentada no gráfico anterior está subdimensionada, já que o registro de 100% dos cultivos representou uma tarefa desafiadora para as famílias agricultoras participantes do estudo — seja pela falta de uma cultura do registro⁷, seja pela grande carga de trabalho dessas famílias, ou pela própria dinâmica de uma produção altamente biodiversa. Por exemplo, na prática, algumas famílias optaram por registrar somente as culturas destinadas à venda, invisibilizando as variedades destinadas para o autoconsumo ou outros fins não comerciais.

Isso evidencia a necessidade de estudos mais detalhados e contínuos, não apenas para compreender a magnitude e o valor dos sistemas agroecológicos de produção, mas também para gerar informações que possam orientar políticas e estratégias de conservação, especialmente diante da crise climática — já que o risco de extinção de espécies aumenta com o aquecimento global⁸ — e das pressões da agricultura industrial sobre a diversidade biológica⁹, uma vez que modelos agrícolas intensivos, tanto pela prática da monocultura quanto pelo uso de agrotóxicos e variedades transgênicas, tem levado ao desaparecimento de inúmeras espécies agrícolas, paisagens e culturas associadas a elas.⁶

Para garantir um futuro sustentável, é essencial proteger, conservar e ampliar a agrobiodiversidade por meio de políticas públicas que promovam o uso sustentável da diversidade biológica agrícola, a conservação in situ, o fortalecimento da agricultura familiar agroecológica¹⁰, a valorização das sementes crioulas e a pesquisa sobre práticas de manejo ecológicas.¹¹

¹ NAIR, Kodoth Prabhakaran. Agrobiodiversity. In: NAIR, Kodoth Prabhakaran (ed.). Biodiversity in Agriculture. Sustainability of Soil, Soil Fauna and Soil Flora. Cham, Switzerland: Springer Cham, 2023. DOI: 10.1007/978‑3‑031‑44252‑0_2.

² MERINO, Leticia (coord.). Crisis ambiental en México. Ruta para el cambio. México: Universidad Nacional Autónoma de México, 2019. Disponível em: https://educacionymedioscolaborativos.org/files/crisis_ambiental_cambio_de_ruta_letici_merino.pdf. Acesso em: 27 set. 2025.

³ LABEYRIE, Vanesse; ANTONA, Martine; BAUDRY, Jacques; BAZILE, Didier; BODIN, Örjan; CAILLON, Sophie; LECLERC, Christian; LE PAGE, Christophe; LOUAFI, Sélim; MARIEL, Juliette; MASSOL, François; THOMAS, Mathieu. Networking agrobiodiversity management to foster biodiversity‑based agriculture. A review. Agronomy for Sustainable Development, v. 41, v. 4, 2021. DOI: 10.1007/s13593‑020‑00662‑z.

⁴ WITTMAN, Hannah; CHAPPELL, Michael Jahi; ABSON, David James; BEZNER KERR, Rachel; BLESH, Jennifer; HANSPACH, Jan; PERFECTO, Ivette; FISCHER, Joern. A social – ecological perspective on harmonizing food security and biodiversity conservation. Regional Environmental Change, v. 17, p. 1291‑1301, 2017. DOI: 10.1007/s10113‑016‑1045‑9.

⁵ WARMAN, Arturo. La reforma agraria mexicana: una visión de largo plazo. In: FAO. Food and Agriculture Organization of the United Nations. Land reform, land settlement and cooperatives. México: FAO, 2003. Disponível em: https://geoamericaunaf.wordpress.com/wp-content/uploads/2011/11/reforma-agraria-en-mexico3.pdf. Acesso em: 27 set. 2025.

⁶ NODARI, Rubens Onofre; GUERRA, Miguel Pedro. A agroecologia: estratégias de pesquisa e valores. Estudos Avançados, v. 29, n. 83, p. 183‑207, 2015. DOI: 10.1590/S0103-40142015000100010.

⁷ CAVALCANTE, Larisse Maria de Azevedo; WITTMAN, Hannah (org.). A cultura do registro na agroecologia. Por que e como registrar sua produção. Florianópolis, SC: Projeto Agroecologia na América Latina: Construindo Caminhos, 2025. Disponível em: https://cepagro.org.br/wp-content/uploads/2025/05/DIGITAL-PORTUGUES-a-cultura-do-registro-na-agroecologia.pdf. Acesso em: 27 set. 2025.

⁸ IPCC. Intergovernmental Panel on Climate Change. Summary for policymakers. In: CORE WRITING TEAM; LEE, Hoesung; ROMERO, José. (ed.). Climate Change 2023: Synthesis Report. Contribution of Working Groups I, II and III to the Sixth Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change. Geneva: IPCC, 2023. p. 1‑34. DOI: 10.59327/IPCC/AR6‑9789291691647.001.

⁹ CASAS, Alejandro; VALLEJO, Mariana. Agroecología y agrobiodiversidad. In: PÉREZ, Leticia Merino (coord.). Crisis Ambiental en México. Ruta para el cambio. México: Universidad Nacional Autónoma de México, Secretaría de Desarrollo Institucional, 2019. p. 103-121. Disponível em: https://agua.org.mx/wp-content/uploads/2021/01/Crisis-Ambiental.pdf. Acesso em: 27 set. 2025.

¹⁰ DRUCKER, Adam G.; RAMIREZ, Marleni. Payments for agrobiodiversity conservation services: an overview of Latin American experiences, lessons learned and upscaling challenges. Land Use Policy, v. 99, v. 104810, 2020. ISSN: 0264-8377.

¹¹ NODARI, Rubens Onofre; TOMÁS, Domingas Felicia. Agrobiodiversidad y desarrollo sostenible: la conservación IN SITU puede asegurar la seguridad alimentaria. Biocenosis, v. 24, n. 1-2, p. 21-29, 2011. Disponível em: https://revistas.uned.ac.cr/index.php/biocenosis/article/view/1199/1235. Acesso em: 27 set. 2025.

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