As práticas agroecológicas são um conjunto de métodos de manejo agrícola, com especificidades locais, que aliam a produção de alimentos com a conservação da natureza e o bem-estar das comunidades.¹ Seu objetivo é reduzir a dependência de insumos externos — como agrotóxicos e fertilizantes químicos —, conservar os recursos naturais — solo, água, biodiversidade —, promover sistemas alimentares mais diversos e sustentáveis e fortalecer a autonomia dos/as agricultores/as.¹
Neste estudo, analisamos a adoção de práticas relacionadas à biodiversidade (Gráfico 10) e práticas relacionadas ao manejo e conservação do solo (Gráfico 11) em dois momentos — em 2022, quando foi realizado o primeiro levantamento através do Survey Stack, e em 2025, no último ano da pesquisa. Os gráficos a seguir apresentam o percentual de famílias que declararam adotar cada uma dessas práticas.
Gráfico 10: Taxa de adoção (%) de práticas relacionadas à conservação e promoção da biodiversidade entre as famílias agricultoras em 2022 (N=113) e 2025 (N=316).
Gráfco 11: Taxa de adoção (%) de práticas relacionadas ao manejo e conservação do solo entre as famílias agricultoras em 2022 (N=112) e 2025 (N=316).
Em 2025, as práticas agroecológicas para conservação e promoção da biodiversidade mais utilizadas pelas famílias agricultoras foram a aplicação de adubos orgânicos (prática adotada por 83,5% das famílias), cultivos consorciados (83,2%), rotação de culturas (79,4%) e diversificação da produção (76,3%). Quando o objetivo era o manejo e conservação do solo, as práticas adotadas pelo maior número de famílias em 2025 foram o uso de cobertura seca (adotada por 82,9% delas), adubação verde (78,5%), cobertura verde e compostagem (ambas utilizadas por 74,7% das famílias). Esses resultados mostram como é fundamental para a agricultura agroecológica manter o solo coberto e protegido, já que três das quatro práticas de manejo do solo mais utilizadas têm essa finalidade.
Não por acaso, a agroecologia tem como um de seus fundamentos a saúde do solo. Como nos ensina Ana Primavesi, a saúde dos seres humanos depende da vitalidade das plantas, que por sua vez dependem diretamente da qualidade do solo, de modo que não é possível existir seres humanos saudáveis sem solos saudáveis.² Além de proteger o solo, as diferente práticas de manejo adotadas pelas famílias participantes buscam melhorar a fertilidade, sustentar comunidades de micro e macro-organismos, favorecer a ciclagem de nutrientes e, assim, contribuir para a produtividade agrícola e a resiliência dos sistemas.³ Diante da diversidade de solos e ecossistemas existentes na América Latina e Caribe, identificar e fortalecer essas práticas é de grande importância para aprofundar e difundir soluções adaptadas a diferentes contextos.⁴
Com relação à variação do uso das práticas ao longo do tempo, apesar de o foco do projeto não ser fomentar diretamente a adoção de novas práticas, observamos resultados positivos em diferentes dimensões. Destaca-se o aumento expressivo das agroflorestas, com crescimento superior a 20 pontos percentuais, e da recuperação de Áreas de Preservação Permanente (APP), que cresceu mais de 12 pontos percentuais. Esses resultados são especialmente relevantes para a conservação da biodiversidade e a restauração ambiental.
Não houve mudanças significativas na adoção de outras práticas apresentadas, mas os resultados indicam que elas seguem sendo utilizadas de forma consistente pelas famílias, sobretudo considerando que a amostra inicial do estudo eram famílias que já adotavam a certificação agroecológica. Esse dado reforça a resiliência de determinadas práticas agroecológicas, que continuam integrando os sistemas produtivos ao longo do tempo, mesmo sem avanços expressivos em termos percentuais.
Por outro lado, o levantamento de 2025 identificou também a presença de práticas não agroecológicas entre algumas famílias — como o controle sintético (21 famílias), fertilizantes sintéticos (41 famílias) e queima de resíduos (9 famílias). Esses dados evidenciam que práticas convencionais ainda coexistem com práticas sustentáveis, refletindo contextos em que a transição agroecológica está em curso, conforme o modelo proposto por Gleissman.⁵ Nesse processo gradual, as famílias podem estar em diferentes níveis, partindo do aumento da eficiência das práticas convencionais, passando pela substituição de insumos por alternativas ecológicas, até o redesenho do agroecossistema e o restabelecimento da conexão entre produtores e consumidores. Essa realidade reforça a importância de estratégias contínuas de sensibilização, apoio técnico, políticas públicas e mecanismos de incentivo financeiro para ampliar a adoção de práticas mais sustentáveis e fortalecer a construção coletiva do conhecimento agroecológico.
* Áreas de Preservação Permanente (APP).
** Plantas alimentícias não convencionais (PANC).
¹ GLIESSMAN, Steve. Defining agroecology. Agroecology and Sustainable Food Systems, v. 42, n. 6, p. 599‑600, 2018. DOI: 10.1080/21683565.2018.1432329.
² PRIMAVESI, Ana Maria. Cartilla del suelo: cómo reconocer y sanar sus problemas. Barinas, Venezuela: IALA, 2009. Disponível em: https://anamariaprimavesi.com.br/2022/11/29/cartilla-del-suelocomo-reconocer-y-sanar-sus-problemas/. Acesso em: 27 set. 2025.
³ HAWES, Cathy; IANNETTA, Pietro P. M.; SQUIRE, Geoffrey R. Agroecological practices for whole-system sustainability. CAB Reviews, v. 16, n. 5, p. 1-19,2021. DOI: 10.1079/PAVSNNR202116005.
⁴ DURÁN, Yuri; GÓMEZ-VALENZUELA, Víctor; RAMÍREZ, Katerin. Socio-technical transitions and sustainable agriculture in Latin America and the Caribbean: a systematic review of the literature 2010-2021. Frontiers in Sustainable Food Systems, v. 7, 2023. DOI: 10.3389/fsufs.2023.1145263.
⁵ GLIESSMAN, Stephen Richard (org.). Agroecologia: processos ecológicos em agricultura sustentável. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2009. ISBN: 978-85-386-0038-1.
As práticas agroecológicas são a base da Agroecologia. É por meio delas que agricultores e agricultoras mantêm o solo saudável e aumentam a biodiversidade, reduzindo o uso de insumos. Elas integram saberes populares e científicos, sempre respeitando os ciclos da natureza. Conheça a seguir algumas das práticas mais utilizadas em diferentes contextos latinoamericanos.
Plantar para melhorar o solo – esse é o princípio das plantas de cobertura, também conhecidas como adubos verdes. São espécies vegetais cultivadas com o objetivo de melhorar as condições físicas, químicas e biológicas do solo, pois ajudam a evitar a erosão, aumentar a matéria orgânica, conservar a umidade e até controlar plantas invasoras. As plantas de cobertura podem ser usadas em qualquer lavoura, sempre em sistema de rotação com as culturas econômicas ou de interesse principal para colheita. Diferente dos cultivos principais, depois de completar o ciclo vegetativo, as plantas de cobertura são derrubadas e ficam sobre o solo, formando uma camada protetora. Exemplos comuns incluem a mucuna, crotalária, feijão-de-porco, nabo forrageiro e ervilhaca.
Diversificar para fortalecer – essa é a lógica dos cultivos consorciados, uma prática que consiste em plantar diferentes espécies no mesmo espaço e ao mesmo tempo. Essa combinação inteligente de plantas aproveita melhor os nutrientes do solo, afasta pragas e doenças e reduz a dependência de insumos externos. Um exemplo tradicional é a milpa, sistema ancestral usado por povos indígenas da Mesoamérica. Nela, milho, feijão e abóbora são cultivados juntos: o milho serve de suporte para o feijão, o feijão fixa nitrogênio no solo e a abóbora cobre o solo com suas folhas largas, ajudando a conservar a umidade e controlar plantas espontâneas.
Imitar a floresta para produzir com equilíbrio – essa é a proposta da agrofloresta, sistema que integra árvores, culturas agrícolas e, às vezes, criação de animais em uma mesma área. Ao combinar espécies com diferentes funções, ciclos e tamanhos, os sistemas agroflorestais promovem a biodiversidade, protegem o solo e melhoram o microclima. Além disso, geram colheitas variadas ao longo do ano, fortalecendo a segurança alimentar e a renda das famílias agricultoras. A prática respeita os tempos da natureza e favorece a regeneração do ambiente, tornando a produção mais resiliente às mudanças climáticas.
Proteger o solo e a água é essencial para uma produção sustentável, especialmente em áreas com declive. O plantio em nível é uma técnica que segue as curvas de nível do terreno – linhas imaginárias onde a altitude é a mesma. Ao alinhar os canteiros ou sulcos conforme essas curvas, a água da chuva infiltra no solo ao invés de escorrer, o que reduz a erosão, evita perdas de nutrientes e favorece a recarga dos lençóis freáticos. Simples e eficaz, essa prática ajuda a manter o solo fértil e produtivo por mais tempo. Em alguns casos, o plantio em nível é combinado com terraceamento (terrazas andinas), prática ancestral usada desde os tempos dos incas.
Asociación de Productores Orgánicos (APRO)
Asociación Vivamos Mejor
Centro Campesino para el Desarrollo Sustentable, A.C.
Centro de Estudos e Promoção da Agricultura de Grupo (Cepagro)
Centro de Tecnologias Alternativas Populares (CETAP)
Corporación Buen Ambiente (Corambiente)
Fundesyram
Movimento Mecenas da Vida (MMV)
Movimiento de Economía Social y Solidaria del Ecuador (meSSe)
Tijtoca Nemiliztli, A.C.
Inter-American Foundation (IAF)
Social Sciences and Humanities Research Council of Canada (SSHRC)
cepagro@cepagro.org.br