Indicadores são medidas quantitativas ou qualitativas que fornecem informações sobre uma realidade ou processo, podendo ser utilizados para identificar tendências e subsidiar a tomada de decisões. Na agroecologia, os indicadores podem ser úteis para a avaliação dos impactos sociais, econômicos e ambientais resultantes da adoção de práticas agroecológicas. Eles geram evidências que podem ajudar a identificar problemas e a traçar estratégias para o avanço das transições agroecológicas, além de subsidiar a elaboração de projetos e políticas públicas.
Bons indicadores precisam ser simples — fáceis de entender e comunicar; mensuráveis — capazes de serem determinados, quantitativa e qualitativa-mente; factíveis — possíveis de serem coletados; flexíveis — possíveis de serem substituídos ou atualizados com novas informações; dinâmicos — aptos a acompa-nhar as mudanças ao longo do tempo; e inspiradores — alinhados com os objetivos dos usuários, e cocriados pelos usuários, quando possível.¹
A primeira fase do projeto Construindo caminhos inicia aí, na cocriação de um quadro de indicadores agroecológicos de forma coletiva pelos agentes envolvidos na pesquisa-ação. Como ponto de partida, a equipe de pesquisadores da Universidade da Colúmbia Britânica analisou sistematicamente os formulários de certificação participativa compartilhados pelas organizações, para avaliar quais componentes do manejo agroecológico estavam sendo mapeados a partir dos Sistemas Participativos de Garantia (SPG). Inicialmente, foram identificadas as semelhanças e diferenças com relação aos indicadores agroecológicos que constavam nos planos de manejo de cada SPG.
Em seguida, os indicadores foram revisados coletivamente em dois encontros presenciais realizados no Brasil (2018) e em El Salvador (2020). Durante essas conferências, foram realizadas discussões em grupo e atividades de votação para identificar, de forma colaborativa, quais indicadores eram prioritários para as organizações, incluindo indicadores adicionais, relativos a aspectos que não eram mapeados nos formulários de certificação existentes. A lista de indicadores resultante foi também comparada com o Instrumento de Avaliação do Desempenho Agroecológico (TAPE) da Organização das Nações Unidas para Alimentação e a Agricultura (FAO).
Ao longo de 2020 e 2021, o Comitê seguiu realizando uma série de encontros virtuais, e chegamos ao acordo de trabalhar inicialmente com 23 indicadores, divididos em três categorias — sociais, econômicas e ambientais. No avançar dos debates, e com base nos dados existentes dos planos de manejo, nos interesses e consensos do grupo e no que a literatura da agroecologia e o TAPE identificam como importantes, o Comitê Gestor e a equipe da UBC decidiram, posteriormente, em 2022, focar na mensuração e monitoramento de 11 indicadores, que foram mantidos até o fim da pesquisa:
Ao realizar uma pesquisa baseada em indicadores, é preciso estabelecer uma linha de base em relação a qual o progresso ou os resultados serão avaliados. Ao estabelecer esse marco zero, torna-se possível avaliar como as relações entre os indicadores podem mudar ao longo do tempo e encontrar um balanço entre indicadores socioculturais, econômicos e ambientais que vise à sustentabilidade. Para esse ponto de partida, cada uma das organizações parceiras recrutou, aproximadamente, 15 famílias agricultoras. A seleção dessas famílias foi baseada na proximidade e participação em ações da organização e na disposição em fornecer informações sobre o manejo de suas unidades agrícolas. Além disso, para serem selecionadas, as famílias agricultoras precisavam ter, pelo menos, três anos de experiência na implementação de práticas agrícolas sustentáveis. Tais famílias forneceram seus planos de manejo² dos últimos três anos para as equipes do projeto analisarem. Para a linha de base do projeto foram utilizados planos de manejo de 112 famílias agricultoras.
Tendo delineado a linha de base do projeto, a partir de 2022 iniciamos a coleta de novas informações de forma sistematizada junto às famílias participantes. Esta coleta se deu através de duas ferramentas — o SurveyStack e o LiteFarm — e foi adaptada à realidade das diferentes organizações e como estas interagiam com as famílias agricultoras.
Aplicação projetada para apoiar grupos de pesquisa que permite criar questionários personalizáveis. O SurveyStack é utilizado no projeto uma vez ao ano, quando são aplicados questionários junto às famílias para obter informações referentes aos indicadores qualitativos. A construção dos questionários se baseou nas perguntas feitas para o processo de certificação dos Sistemas Participativos de Garantia adotados por algumas das organizações participantes.
É uma ferramenta gratuita e de código aberto, completa para a gestão agrícola. Foi cocriado por agricultores e pesquisadores como um aplicativo web para avaliação participativa da sustentabilidade social, ambiental e econômica da agricultura, com base nos princípios de soberania alimentar e de dados, além da governança ética dos dados. Por meio dela, os usuários podem mapear suas propriedades, planejar culturas e criações, gerenciar tarefas, acompanhar finanças, monitorar o ciclo de nutrientes e a saúde do solo, rastrear emissões de gases de efeito estufa e observar indicadores de biodiversidade. Além disso, o LiteFarm pode facilitar processos de certificação orgânica.
O aplicativo LiteFarm foi o principal repositório de informações do projeto para a geração de indicadores quantitativos, como tamanho das unidades agrícolas, áreas naturais, agrobiodiversidade e produção agroecológica. Mais do que uma ferramenta de registro, ele também se consolidou como um dos resultados do projeto, já que o Comitê Gestor participou ativamente de seu co-desenho e aprimoramento. As contas no LiteFarm são atríbuídas ao nome e e-mail do/a agricultor/a, que concede acesso a parte das informações ao técnico ou técnica de campo da organização correspondente. Assim, mesmo com a troca do/a técnico/a, a informação permanece vinculada à conta da unidade agrícola, superando o problema do extrativismo e perda de dados, que é comum tanto na pesquisa quanto na extensão rural.
Como o uso da tecnologia ainda representa um desafio para muitos agricultores, algumas organizações distribuíram cadernos de campo para o registro manual de cultivos e colheitas ao longo do ano. Posteriormente, os/as técnicos/as de campo dessas organizações transferiam as anotações para as contas do LiteFarm de cada família. Com o tempo, percebeu-se a importância de envolver mais jovens na pesquisa-ação, por dois motivos principais: primeiro, porque geralmente têm maior familiaridade e interesse pelo uso de tecnologias como o LiteFarm; segundo, porque a própria pesquisa vinha evidenciando que a suces-são rural é uma preocupação constante no meio campesino latino-americano, já que muitos filhos e filhas de agricultores não têm demonstrado interesse em seguir trabalhando na agricultura. Nesse sentido, integrá-los ao projeto seria uma oportuni-dade de aproximá-los da gestão das unidades agroecológicas. Em 2025, o proje-to contava com a participação de 51 jovens atuando como “promotores tecnológicos”.
Cada ciclo de coleta das informações se dava normalmente no período de junho a junho e anualmente, novas famílias iam sendo incorporadas no processo. A partir de julho de cada ano, a equipe de análise e visualização de dados da UBC, sob a orientação da professora Hannah Wittman e colaboração de seu colega Dr. Khanh Dao Duc, sistematizava as informações para a elaboração de relatórios anuais. Em 2025, com o encerramento do projeto, as informações coletadas entre 2021 e 2025 são apresentadas no relatório síntese do projeto: Perspectivas da Agroecologia na América Latina (2021-2025).
¹ GARRETT, R. D.; LATAWIEC, A. What are sustainability indicators for? Em: LATAWIEC, A.; AGOL, D. (Eds.). Sustainability Indicators in Practice. Berlin; Boston: De Gruyter Open, 2015. p. 12–22. DOI: 10.1515/9783110450507. Disponível em: https://www.degruyter.com/document/doi/10.1515/9783110450507/html. Acesso em: 30 set. 2025.
² Plano de manejo é um documento técnico que organiza estratégias e ações para o uso sustentável dos recursos naturais em uma propriedade rural. Nos Sistemas Participativos de Garantia (SPG), ele é fundamental para a certificação orgânica, servindo como instrumento de registro e acompanhamento das práticas agroecológicas.
Asociación de Productores Orgánicos (APRO)
Asociación Vivamos Mejor
Centro Campesino para el Desarrollo Sustentable, A.C.
Centro de Estudos e Promoção da Agricultura de Grupo (Cepagro)
Centro de Tecnologias Alternativas Populares (CETAP)
Corporación Buen Ambiente (Corambiente)
Fundesyram
Movimento Mecenas da Vida (MMV)
Movimiento de Economía Social y Solidaria del Ecuador (meSSe)
Tijtoca Nemiliztli, A.C.
Inter-American Foundation (IAF)
Social Sciences and Humanities Research Council of Canada (SSHRC)
cepagro@cepagro.org.br