A equidade social é um dos pilares da agroecologia.¹ Por isso, incluímos as “relações de gênero” como um dos 11 indicadores prioritários deste estudo, por reconhecer que essas relações ainda costumam ser marcadas por desigualdades históricas em diferentes esferas sociais. A análise desse indicador considerou tanto a tomada de decisões quanto a divisão das tarefas agrícolas e domésticas. É importante ressaltar que a grande maioria das famílias mapeadas é composta por pessoas dos gêneros feminino e masculino, tendo sido identificada apenas uma pessoa como não binária.
Durante a aplicação dos questionários qualitativos, perguntamos às famílias quem costuma tomar as decisões relacionadas a atividades como acesso a crédito, produção agrícola e atividades não agrícolas. As respostas de 2025 estão representadas no Gráfico 21.
Gráfico 21: Tomadas de decisão de acordo com o gênero (2025, N=321).
De maneira geral, observa-se que as decisões tendem a ser tomadas de forma compartilhada entre homens e mulheres. No entanto, ainda persiste uma predominância do gênero masculino nas decisões relativas à produção e ao acesso a crédito. Esse dado merece atenção, já que a presença das mulheres em espaços de liderança é essencial para que suas perspectivas e prioridades sejam incorporadas de maneira justa, além de contribuir para evitar a sobrecarga de trabalho.²
Outro aspecto investigado foi a distribuição das tarefas de acordo com o gênero. O Gráfico 22 representa as respostas para a pergunta “quem participa mais nas seguintes atividades?”.
Gráfico 22: Distribuição das tarefas de acordo com o gênero (2025, N=321).
Observa-se que atividades como o uso de maquinário, insumos e operações manuais são predominantemente associadas aos homens. Já o cuidado das pessoas, as atividades domésticas, o preparo da comida e o processamento dos alimentos continuam majoritariamente sob responsabilidade das mulheres.
Vale ressaltar, contudo, que o trabalho doméstico e de cuidado — embora muitas vezes invisibilizado — é a base de qualquer economia, pois garante a reprodução da vida e o funcionamento das famílias e comunidades. Embora as ações protagonizadas por mulheres dentro da luta feminista na agroecologia têm contribuído para valorizar e ressignificar o trabalho doméstico e de cuidado, reduzindo sua invisibilidade social, ainda percebe-se que a redistribuição efetiva dessas tarefas permanece um desafio, perpetuando jornadas múltiplas e não remuneradas para as mulheres.³ ⁴
Reconhecer, valorizar e redistribuir esse trabalho é, portanto, essencial não apenas para a equidade de gênero, mas também para a sustentabilidade dos sistemas agroecológicos e para consolidar a agroecologia como um modelo de produção socialmente justo. Também é importante fomentar o empoderamento econômico e social das mulheres no contexto agroecológico. Isso pode ser feito, por exemplo, por meio de projetos com enfoque específico em gênero e de formações que fortaleçam a liderança feminina.⁵
Um exemplo relevante no contexto brasileiro é a Caderneta Agroecológica⁶, instrumento de registro utilizado por mulheres rurais para documentar tanto sua produção agrícola quanto suas atividades domésticas. Ao tornar visível a contribuição feminina para a economia familiar e para a agroecologia, a caderneta reforça o reconhecimento e a valorização do trabalho das mulheres, além de servir como ferramenta de organização, planejamento e até mesmo de acesso a políticas públicas.
Em âmbito regional, outra iniciativa importante é a Plataforma Regional para el Empoderamiento de las Mujeres Rurales, lançada pela FAO em agosto de 2025, que constitui uma ferramenta estratégica voltada a fortalecer as capacidades, os direitos e os espaços de liderança de mulheres rurais, indígenas, afrodescendentes e jovens da América Latina e Caribe. Iniciativas como essa mostram que avançar na equidade de gênero é também aprofundar a própria agroecologia enquanto projeto de futuro para os territórios.
¹ FAO. Food and Agriculture Organization of the United Nations. Agroecology overview: the 10 elements of agroecology. Rome: FAO, 2019. Disponível em: https://www.fao.org/agroecology/overview/overview10elements/en/. Acesso em: 27 set. 2025.
² ZAREMBA, Haley; ELIAS, Marlène; RIETVELD, Anne; BERGAMINI, Nadia. Toward a feminist agroecology. Sustainability, v. 13, 2021. DOI: 10.3390/su132011244 .
³ BEZNER KERR, Rachel; LIEBERT, Jeffrey; KANSANGA, Moses; KPIENBAAREH, Daniel. Human and social values in agroecology: a review open access. Science of the Anthropocene, v. 10, n. 1, 2022. DOI: 10.1525/elementa.2021.00090.
⁴ LIMA, Márcia Maria Tait; JESUS, Vanessa Brito de. Questões sobre gênero e tecnologia na construção da agroecologia. Scientiae Studia, v. 15, n. 1, p. 73–96, 2017. DOI: 10.11606/51678-31662017000100005.
⁵ FEITOSA, C.; YAMAOKA, M. Strengthening climate resilience and women’s networks: Brazilian inspiration from agroecology. Gender & Development, v. 28, n. 3, p. 459–478, 1 set. 2020. DOI: 10.1080/13552074.2020.1840149.
⁶ CTA – ZONA DA MATA. Centro de Tecnologias Alternativas Zona da Mata. Cadernetas agroecológicas. Viçosa: CTA – Zona da Mata, 2025. Disponível em: https://ctazm.org.br/biblioteca/categoria-cadernetas-agroecologicas-48. Acesso em: 27 set. 2025.
Asociación de Productores Orgánicos (APRO)
Asociación Vivamos Mejor
Centro Campesino para el Desarrollo Sustentable, A.C.
Centro de Estudos e Promoção da Agricultura de Grupo (Cepagro)
Centro de Tecnologias Alternativas Populares (CETAP)
Corporación Buen Ambiente (Corambiente)
Fundesyram
Movimento Mecenas da Vida (MMV)
Movimiento de Economía Social y Solidaria del Ecuador (meSSe)
Tijtoca Nemiliztli, A.C.
Inter-American Foundation (IAF)
Social Sciences and Humanities Research Council of Canada (SSHRC)
cepagro@cepagro.org.br